SAÚDE MENTAL

Ninguém é muita areia para o caminhão de ninguém

Por Fabíola Simões, do Blog A Soma de Todos os Afetos

O atleta Bo se apaixona pela menina Will, e ela, insegura com seu peso e seu físico, faz de tudo para afastá-lo, ou pelo menos para que ele enxergue que se enganou e escolheu a pessoa errada. Na cabeça dela, quanto antes ele souber que ela é “horrível”, melhor.

O filme “Dumplin”, baseado no livro homônimo de Julie Murphy, traz à tona o tema da autoestima, autoconfiança e insegurança. Apesar da história central não girar em torno do romance vivido por Willowdean Dickson (Danielle McDonald) e Bo Larson (Luke Benward), me fez refletir sobre o quanto nos acovardamos diante de alguns presentes inesperados da vida. O quanto desdenhamos a felicidade quando não nos julgamos merecedores. O quanto podemos recusar o afeto de alguém simplesmente por não nos considerarmos bons o bastante para esse alguém.

Rupi Kaur tem uma frase que gosto muito que diz assim: “Como você ama a si mesma é como você ensina todo mundo a te amar”. Essa frase me faz pensar que a gente se acostumou a receber e a aceitar pouco, e quando recebemos muito, que susto! Supomos que houve um engano, erraram o endereço, estão pregando uma peça na gente. A gente não se conforma em ser o objeto de desejo de alguém. A gente se assusta ao ser eleito interessante. A gente se esquece que se acostumou a querer pouco, e ensinamos aos outros que merecíamos pouco também.

Você pode ter a autoestima lá em cima, mas quando afasta alguém ou sabota a própria felicidade por não dar conta de lidar com tanta areia para o seu caminhão, está atestando que prefere a paz permanente da derrota que a alegria volátil do êxito.

A gente precisa parar com essa mania de afugentar as bênçãos como se não desse conta de lidar com elas. Como se a infelicidade fosse mais certa, confiável e confortável. Como se ser eleito pela sorte fosse uma pegadinha de mal gosto ou um sonho passageiro do qual logo iremos acordar.

Insegurança é isso: Preferir se refugiar numa vida segura, restrita e infeliz a ousar afrouxar nossas defesas e expor nossa vulnerabilidade correndo o risco de ser um pouco mais feliz.

Quando adquirimos autoconfiança não perdemos o medo, mas suportamos melhor as derrotas. Quando nos tornamos autoconfiantes não se esgotam as preocupações, mas aprendemos a tolerar as imperfeições, sem desistir de nós mesmos diante das primeiras aflições.

Descobrir que podemos viver sem comparações, mas respeitando e valorizando a diversidade de corpos, rostos, cabelos, tons de pele e estruturas ósseas nos ajuda a entender que no final das contas, ninguém é muita areia para o caminhão de ninguém.

Que possamos amadurecer com sabedoria, aceitando que somos geniais o bastante para merecermos amores incríveis, inteiros e loucos para atravessarem a vida conosco. E que não nos falte a capacidade de viver e amar com intensidade, arriscando ser um pouco mais feliz em nossa vulnerabilidade.

***

PS: Chega de gordofobia!

*Compre meu livro  da autora Fabíola Simões: “Felicidade Distraída” aqui: https://amzn.to/2P8Hl2p

Fabíola Simões

Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

Recent Posts

Muitos assinantes da Netflix dizem que esta série é a mais viciante do streaming

Com apenas seis episódios, a produção figura entre os títulos mais assistidos da plataforma e…

15 horas ago

5 comportamentos comuns dos pais que tornam os filhos mais inseguros

Segundo as especialistas, há comportamentos recorrentes no ambiente familiar que, mesmo sem intenção, acabam reforçando…

16 horas ago

A face sombria pouco conhecida de Maria Montessori, criadora do famoso método pedagógico

Pedagoga italiana revolucionou a educação, mas algumas de suas ideias geram muitos debates até hoje.

2 dias ago

Filme espetacular que concorreu a 6 Oscars é uma preciosidade no catálogo da Netflix

Uma obra-prima do cinema contemporâneo, que emociona sem apelar para o melodrama.

2 dias ago

Pessoas que não tiveram amigos na infância podem apresentar esses 5 comportamentos sem saber, segundo a psicologia

Crescer sem amigos pode ter efeitos profundos no desenvolvimento emocional e social de uma pessoa.

3 dias ago

Filme baseado em clássico imortal da literatura chega à Netflix e conquista os assinantes

Para os fãs de aventuras e clássicos da literatura, essa é uma ótima oportunidade de…

3 dias ago